O destino foi um bar chamado Friday, no Pelourinho, no qual meu então namorado, Fernando Ferraz, me garantiu que estaria rolando um blues fora do comum. Depois de um tempinho de espera, aparece um cara cinquentão, com a maior cara de acabado, balbuciando umas coisas num português quase incompreensível e com uma voz sufocada que mal dava pra ouvir. Foi aí que a mágica aconteceu. Aquele que ninguém acreditava ser o vocalista da banda se transformou num autêntico bluesman, cantando com as vísceras “I'm goin' to kansas City / Kansas City here I come”, delirando no palco improvisado e arrancando aplausos fervorosos do público que ocupava a meia dúzia de mesas do local.
Salvador, 1990. Ao passar numa noite em frente à Cantina da Lua, no Pelourinho, Jean Mitchel ouve uma mistura de jazz e rock'n'roll que lhe chama a atenção e o faz duvidar de que está mesmo na terra do dendê. Foi ver do que se tratava e, mesmo preocupado com o fato de não cantar há quase duas décadas, juntou-se aos músicos responsáveis pelo som - o guitarrista italiano Gini Zambelli e o baixista venezuelano Keko Vilarroel - e pôs-se a evocar James Brown, Robert Johnson, Little Richard, Chuck Berry, Steve Wonder, Otis Reding, Jerry Lee Lewis, George Gershwing e Wilson Picket. Nascia ali a Jean Mitchel Blues Band, aplaudida de pé, inclusive, no Bourbon Street Music Club (São Paulo), por onde já passaram nomes como Buddy Guy, Ray Charles e B.B. King.
Salvador, 1999. Terminado o show, não resisto ao impulso de parabenizar o bluesman que tanto me impressionou. E foi aí que aconteceu uma daquelas coisas que fazem a gente se sentir, no mínimo, dentro de um filme de Almodóvar. Ele sussurrou, com uma expressão abatida, acinzentada, típica de uma fogueira quando se apaga: "Muito obrigado, mas hoje não foi dos meus melhores dias. Estou com o coração partido, destroçado mesmo. Perdi minha filha de 13 anos ontem. Está na capa de todos os jornais". E seguiu em direção ao balcão do bar, resignado, em busca de alguém que lhe pagasse uma cerveja ou lhe cedesse um cigarro.
Epílogo
Nessa época, Jean Michel morava no porão do Friday (“gentilmente cedido” pela dona do bar), alternava duas únicas mudas de roupa e sobrevivia com os trocados que recebia de couvert. Contava os dias pra chegar sexta-feira, pois era o único em que ele podia cantar e garantir o pão do resto da semana. Pra controlar a ansiedade e fazer o tempo passar mais rápido, pintava quadros abstratos com material doado por alguns artistas plásticos do Pelourinho, praticava meditação e fazia anotações para o seu próximo livro, “Luz nas Trevas”, ainda não publicado.
Com o friday cada vez mais às moscas (a vida cultural do Centro Histórico já dava seus primeiros sinais de decadência), a dona decidiu fechar o estabelecimento, não restando outra opção a Jean além de voltar a morar na rua. Pra piorar a situação, ele engravidou uma mulher viciada em crack, que sumia durante dias e deixava o bebê aos seus cuidados. Foi nesse contexto que Jean acabou preso, desta vez, por furto. Assim que deixou a penintenciária, tentou retomar o trabalho com a banda, mas as portas dos espaços alternativos de Salvador estavam ainda mais inacessíveis. Chegou, no entanto, a fazer uma curta temporada no bar Alphorria (Santo Antonio além do Carmo) no verão de 2006 e a participar de um festival de rock em Conceição do Almeida (cidadezinha com pouco mais de 20 mil habitantes, próxima a Santo Antonio de Jesus) realizado no início do ano passado.
Hoje, segundo informações do guitarrista Gini Zambelli, Jean continua sem-teto e internado em estado grave no hospital das Obras Sociais Irmã Dulce por causa de problemas respiratórios . Enquanto seus companheiros de banda aguardam sua recuperação, prosseguem firmes na batalha por novos lugares pra tocar, sendo que a perspectiva mais concreta é um restaurante a quilo no Comércio. Julgamentos morais (que nada têm a ver com o bom e velho blues) à parte, o que o pessoal do Café Portela, Balcão Botequim e Boomerangue está esperando? O maior e mais sensacional cantor de blues que já passou por estas bandas está aqui, doente por não poder viver da sua arte, enquanto os amantes do gênero (que não são poucos na Bahia) sobrevivem à míngua.
texto retirado : http://silvanamalta.blogspot.com/2008/03/jean-mitchel-saga-de-um-blues-man.html
Faixas do CD:
1. Bring it on home to me
2. Hootchie Cootchie Man
3. I believe to my soul
4. I gotta move out of my neighborhood
5. Kansas City
6. Mustang Sally
7. Something you got
8. Summertime
9. Sunny
10. Unchain My Heart